Saúde mental no trabalho: o erro mais comum das empresas ao olhar para NR-1

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A atualização da Norma Regulamentadora NR-1 marcou um ponto de virada importante na forma como as empresas brasileiras devem lidar com a saúde mental no trabalho. Ao incluir oficialmente os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), a norma deixou claro que fatores como estresse excessivo, sobrecarga, pressão constante, assédio e insegurança emocional não […]

Saúde mental no trabalho: o erro mais comum das empresas ao olhar para NR-1

A atualização da Norma Regulamentadora NR-1 marcou um ponto de virada importante na forma como as empresas brasileiras devem lidar com a saúde mental no trabalho. Ao incluir oficialmente os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), a norma deixou claro que fatores como estresse excessivo, sobrecarga, pressão constante, assédio e insegurança emocional não são mais temas subjetivos ou opcionais, são riscos ocupacionais que precisam ser identificados, monitorados e gerenciados. 

Apesar disso, muitas empresas ainda cometem um erro recorrente e perigoso ao olhar para a NR-1: tratá-la apenas como uma exigência burocrática, algo a ser resolvido com documentos, laudos e registros pontuais, sem uma mudança real na forma de gerir pessoas e ambientes de trabalho. 

Esse erro não apenas compromete a efetividade da norma, como também coloca em risco a saúde mental no trabalho, a sustentabilidade dos resultados e a própria cultura organizacional. 

1. O que a NR-1 realmente propõe (e o que ela não é) 

Antes de entender o erro mais comum, é importante alinhar expectativas sobre o que a NR-1 representa. A norma não foi criada apenas para aumentar controles ou gerar mais burocracia. Seu principal objetivo é prevenir riscos, proteger trabalhadores e promover ambientes de trabalho mais seguros, física e emocionalmente. 

Quando falamos de saúde mental no trabalho, a NR-1 propõe que as empresas: 

Identifiquem fatores psicossociais presentes no ambiente; 

Avaliem impactos do trabalho na saúde emocional; 

Implementem ações preventivas e corretivas; 

Acompanhem resultados ao longo do tempo; 

Mantenham registros consistentes e atualizados. 

O que a NR-1 não propõe é: 

Ações pontuais e desconectadas; 

Diagnósticos sem plano de ação; 

Documentos que não refletem a realidade do dia a dia; 

Transferência de responsabilidade apenas para o RH. 

Ou seja, a NR-1 exige gestão contínua, não soluções rápidas ou simbólicas. 

2. O erro mais comum: olhar para a NR-1 apenas como compliance 

O erro mais comum das empresas ao olhar para a NR-1 é enxergá-la apenas sob a lente do compliance. Nesse cenário, a preocupação central não é a saúde mental no trabalho, mas sim: 

“O que precisamos entregar para não sermos multados?” 

“Qual documento comprova que estamos em conformidade?” 

“Qual fornecedor resolve isso mais rápido?” 

Esse tipo de abordagem gera soluções superficiais, como: 

Laudos genéricos; 

Pesquisas aplicadas uma única vez; 

Treinamentos isolados; 

Campanhas pontuais sem continuidade. 

O problema é que saúde mental no trabalho não se resolve em um evento ou relatório. Quando a NR-1 é tratada como checklist, a empresa cria uma falsa sensação de segurança, enquanto os riscos continuam presentes, muitas vezes invisíveis. 

3. Os riscos de uma visão burocrática da NR-1 

Ignorar a essência da NR-1 e focar apenas na formalidade traz consequências sérias para a organização. 

❌ Risco jurídico e trabalhista 

Documentos desconectados da realidade não protegem a empresa em casos de fiscalização, ações trabalhistas ou auditorias. Quando não há coerência entre prática e registro, a exposição ao risco aumenta. 

❌ Adoecimento silencioso das equipes 

Sem acompanhamento contínuo, sinais de sofrimento emocional passam despercebidos. Burnout, ansiedade e afastamentos tendem a crescer, impactando diretamente a saúde mental no trabalho. 

❌ Queda de engajamento e performance 

Ambientes onde as pessoas não se sentem ouvidas ou cuidadas geram desmotivação, absenteísmo e queda de produtividade, exatamente o oposto do que a NR-1 busca prevenir. 

❌ Perda de credibilidade da liderança e do RH 

Quando colaboradores percebem que as ações relacionadas à saúde mental não são sérias, a confiança na empresa e na liderança é comprometida. 

4. Saúde mental no trabalho não é um projeto, é um processo 

Um dos grandes equívocos associados à NR-1 é tratá-la como um projeto com começo, meio e fim. Na prática, a saúde mental no trabalho é um processo contínuo, que exige: 

Escuta frequente; 

Análise de dados; 

Revisão de práticas de liderança; 

Ajustes de carga e metas; 

Desenvolvimento constante da cultura organizacional. 

Assim como riscos físicos não são avaliados apenas uma vez, os riscos psicossociais também não podem ser tratados de forma pontual. Mudanças no negócio, na liderança ou no modelo de trabalho impactam diretamente o bem-estar emocional das equipes. 

A NR-1 reconhece essa dinâmica, o erro está em ignorá-la. 

5. O papel dos dados na aplicação correta da NR-1 

Outro erro comum das empresas é basear decisões apenas em percepções subjetivas. Para gerir saúde mental no trabalho de forma eficaz, é essencial transformar sentimentos, experiências e percepções em dados estruturados. 

Isso inclui: 

Pesquisas de clima e sentimento aplicadas de forma recorrente; 

Indicadores de engajamento, turnover e absenteísmo; 

Análise de áreas ou times com maior risco psicossocial; 

Acompanhamento da evolução após ações implementadas. 

Sem dados, a gestão da NR-1 se torna reativa. Com dados, ela se torna estratégica, preventiva e sustentável. 

6. A NR-1 não é só do RH (e esse também é um erro comum) 

Delegar toda a responsabilidade da NR-1 ao RH é outro erro frequente. Embora o RH tenha papel central na coordenação das ações, a saúde mental no trabalho é uma responsabilidade compartilhada. 

Líderes precisam: 

Entender os riscos psicossociais; 

Observar sinais de alerta no dia a dia; 

Ajustar rotinas, metas e prioridades; 

Promover um ambiente emocionalmente seguro. 

Quando a NR-1 fica restrita ao RH, ela perde força e impacto. Quando líderes se envolvem, ela ganha vida no cotidiano das equipes. 

7. O que muda quando a NR-1 é vista como estratégia 

Empresas que superam o erro do compliance e passam a enxergar a NR-1 como estratégia percebem mudanças significativas: 

Melhoria no clima organizacional; 

Redução de afastamentos; 

Maior engajamento e confiança; 

Liderança mais preparada; 

Decisões mais equilibradas entre resultado e bem-estar. 

Nesse contexto, a NR-1 deixa de ser um “problema a resolver” e passa a ser um instrumento de evolução da gestão de pessoas. 

8. Como evitar o erro mais comum na prática 

Para não cair na armadilha da burocratização da NR-1, algumas boas práticas são fundamentais: 

Integrar saúde mental à estratégia do negócio, não apenas ao jurídico; 

Garantir escuta contínua, e não pontual; 

Usar dados para orientar decisões, não achismos; 

Desenvolver lideranças, preparando-as para lidar com temas emocionais; 

Comunicar com transparência, mostrando o que será feito com os dados coletados; 

Revisar ações periodicamente, entendendo que o contexto muda. 

Essas práticas ajudam a transformar a NR-1 em um aliado, não em uma obrigação vazia. 

9. Cultura organizacional: onde a NR-1 realmente se sustenta 

Nenhuma norma funciona de forma isolada se a cultura organizacional não sustenta suas premissas. Quando a cultura valoriza apenas o resultado, normaliza excessos e silencia emoções, qualquer iniciativa ligada à saúde mental no trabalho se torna frágil. 

Por outro lado, culturas que incentivam diálogo, respeito e equilíbrio tornam a aplicação da NR-1 mais natural e eficaz. Nesse ambiente, a norma não é vista como imposição, mas como extensão de valores já praticados. 

Conclusão 

O erro mais comum das empresas ao olhar para a NR-1 não está na falta de recursos ou de ferramentas, mas na forma como a norma é interpretada. Quando a NR-1 é reduzida a um checklist, perde-se a oportunidade de promover ambientes mais saudáveis, humanos e produtivos. 

A saúde mental no trabalho é um pilar para resultados sustentáveis, retenção de talentos e reputação organizacional. 

Empresas que entendem isso saem na frente. Não porque cumprem a norma, mas porque compreendem que cuidar das pessoas é a base de qualquer estratégia de crescimento consistente. 

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1 comentário
Manuela Centeno

Manuela Centeno

Adorei o conteúdo, faz muito sentido!