Currículo mostra o que você sabe, fuçar mostra o que você é capaz de aprender

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Em 1928, um dia qualquer, Alexander Fleming volta de férias e encontra uma bagunça no laboratório: placas de cultura esquecidas na bancada, uma delas contaminada por um bolor estranho. A maioria dos cientistas teria jogado tudo fora e recomeçado. Fleming, não. Ficou ali para aprender, olhando para aquela placa contaminada, curioso com o fato de […]

Currículo mostra o que você sabe, fuçar mostra o que você é capaz de aprender

Em 1928, um dia qualquer, Alexander Fleming volta de férias e encontra uma bagunça no laboratório: placas de cultura esquecidas na bancada, uma delas contaminada por um bolor estranho. A maioria dos cientistas teria jogado tudo fora e recomeçado. Fleming, não. Ficou ali para aprender, olhando para aquela placa contaminada, curioso com o fato de que, ao redor do bolor, as bactérias simplesmente não cresciam. Naquele momento, sem um plano definido, tinha alguém disposto a fuçar o que não deveria estar ali, assim nasceu a penicilina. 

Comecei contando essa história porque, há alguns anos, ouvi a Luiza Helena Trajano falar sobre uma competência que me chamou atenção pelo nome minimamente curioso: capacidade fuçativa. A expressão “me pegou” e uso ela até hoje, inclusive já tendo utilizado em processos de feedback. Não somente pelo termo utilizado por ela, mas porque traduz, de um jeito bem simples, uma característica que considero cada vez mais importante no mundo do trabalho, especialmente na era da IA: a disposição para perguntar, investigar, procurar, descobrir, conectar informação, aprender e, principalmente, não se conformar em não saber. 

Olhando para minha própria trajetória, talvez essa tenha sido uma das competências que mais me ajudaram a construir carreira, principalmente lá atrás, quando descobri que saber RH não bastava. 
 
No início da carreira, tive a oportunidade de atuar em Recursos Humanos, no papel de generalista, olhando pra unidades internacionais. E logo descobri uma coisa importante: saber RH não seria suficiente para os desafios. Eu precisava entender do negócio. Para fazer isso, precisei sair da minha área e começar a fuçar. Fui conversar com gente da exportação, do comercial, da logística e de outras áreas, aliás, passava mais tempo nessas áreas do que no próprio RH. Fiz perguntas, muitas perguntas. Procurei quem pudesse me explicar aquilo que eu ainda não entendia. Não tinha um manual pronto dizendo exatamente o que eu precisava saber, então fui atrás de aprender. 

Foi assim que percebi que, para ser um RH mais estratégico, eu precisava primeiro entender aquilo que não era RH. Foi fuçando que descobri que, muitas vezes, a melhor forma de ampliar nosso impacto é sair da nossa própria caixa. 

Saber muito ainda importa, mas já não é suficiente 

Durante muito tempo, construímos carreira valorizando quem sabia muito, era pré-requisito para cargo de liderança ser especialista em algum tema. Hoje continua importante ter conhecimento, experiência, domínio técnico, a questão é que o mundo mudou, e continua mudando numa velocidade que torna cada vez mais difícil prever quais conhecimentos vão ser necessários daqui a alguns anos. Por isso, saber aprender passa a valer tanto quanto saber. 

Não sou só eu dizendo isso por intuição, o Fórum Econômico Mundial, no seu Future of Jobs Report 2025, coloca pensamento analítico, resiliência e liderança no topo das competências mais valorizadas pelas empresas até 2030, mas aponta curiosidade e aprendizado contínuo como uma das habilidades que mais cresce em importância no mesmo período. Ou seja, o mundo já tem dado e nome pra isso. A Luiza chamou de capacidade fuçativa. O Fórum chama de curiosity and lifelong learning. 

Curiosidade é o começo, fuçar é colocar isso em movimento 

Ser curioso é querer entender, ter capacidade fuçativa, pra mim, é ir além. É perguntar: quem sabe sobre isso? Como outras empresas fazem? O que existe fora da minha área que pode me ajudar a resolver esse problema? Com quem eu deveria conversar? O que eu posso testar? E se fosse diferente? E se a gente tentar? 

E, depois de achar uma resposta, ter disposição para transformar descoberta em ação. É curiosidade com movimento, é reconhecer que a gente não precisa ter todas as respostas, mas precisa saber onde procurá-las, aprender com elas e não se conformar com um “sempre foi feito assim”. O que nos trouxe até aqui não necessariamente nos levará adiante. 

E a IA torna isso ainda mais importante 

Vivemos uma contradição curiosa. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. Uma pergunta pode levar a dezenas de fontes, especialistas, estudos e, claro, ferramenta de IA capazes de ajudar a encontrar resposta em segundos. Mas ter acesso à resposta não significa necessariamente saber fazer boas perguntas. 

A IA pode ajudar a responder, mas quem define o que precisa ser perguntado? Quem percebe que existe um problema? Quem conecta a informação que parecia desconectada? Quem faz a análise crítica? Quanto mais tecnologia a gente tiver para produzir resposta, mais valor existe em gente que sabe fazer pergunta e que quer aprender. 

Não sei quais serão as competências do futuro 

E talvez esse seja justamente o ponto. A gente não sabe exatamente quais tecnologias vão existir, quais profissões vão ser criadas, quais conhecimentos vão ser necessários daqui a cinco, dez, quinze anos. Mas dá para desenvolver gente capaz de aprender continuamente. Gente que não tem medo de dizer “eu não sei” e que, logo em seguida, pergunta: “mas quem sabe?”. 
 
Foi assim que construí boa parte da minha trajetória. Eu não sabia tudo que precisava saber (sigo não sabendo). Mas aprendi a procurar, a perguntar, a ouvir quem sabia, a entrar em área que, à primeira vista, não tinha nada a ver com a minha. Não tive medo de fuçar. 

Fleming não estava seguindo um protocolo quando achou a penicilina, estava fuçando. Talvez essa seja justamente uma das competências que mais precisamos incentivar nas nossas organizações. O futuro não vai ser necessariamente de quem sabe mais, pode ser de quem nunca perde a vontade de aprender. Talvez o que a gente precise trabalhar dentro das organizações, é a criação de ambientes onde a pergunta é bem-vinda.

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1 comentário
Manuela Centeno

Manuela Centeno

Adorei o conteúdo, faz muito sentido!